sábado, 6 de outubro de 2012

O problema da interiorização no estudo de História Militar: o caso de Santos e seus mortos na Revolução de 1932.




Ney Paes Loureiro Malvasio



O texto original foi dividido em quatro partes.
 

Parte final




                                         Considerações Finais

 

Portanto, através de uma pesquisa efetuada em fontes da época da revolução de 1932, as fontes primárias como são chamadas no trabalho histórico, pude verificar que nem todos os militares e voluntários civis, nascidos numa cidade de São Paulo, nesse caso específico, Santos, eram conhecidos na terra natal ao ser feita uma grandiosa homenagem, nos cinqüenta, ao contrário do que já fora demonstrado na São Paulo capital, logo após o movimento armado. Claro que, refiro-me apenas aos mortos durante o período de combates, de julho ao início de outubro de 1932.

Apresentei, em razão disso, os sete mortos restantes que deveriam ter seus nomes gravados, junto aos outros combatentes tombados após o nove de julho no grande monumento erigido em frente a catedral e o Fórum de Santos. Como se depreende, esses mortos em combate já eram conhecidos muito bem em 1936, na grande campanha pela construção do Obelisco do Jardim do Ibirapuera em São Paulo, e mesmo depois disso, ainda eram desconhecidos na ereção do monumento aos mortos santistas, vinte anos depois.

Como demonstrado, esses mortos em combate especificados neste artigo, só ficaram até agora rememorados na macro-história política e militar e não na memória local/regional da cidade que os viu nascer. Portanto, existe essa situação limitada no trabalho histórico, como procurei demonstrar nessa pesquisa, de utilizar apenas a história regionalista ao procurar rememorar a história político/militar de um evento que se alastrou pelo estado e muito além, tal como aconteceu com o voluntário Gastão Lopes Leal em pleno Rio de Janeiro, a capital federal à época.

 

 

Ney Paes Loureiro Malvasio
neymalvasio@gmail.com
Mestre em História Social pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/IFCS),
Membro da Associação de Combatentes
de 1932/Seção Santos, antigo professor do
Quadro Complementar de Oficiais do
Colégio Militar do Rio de Janeiro.
 

 

 

Fontes de Consulta:

 

      AMARAL, Antônio B. A missão Francesa de Instrução da Força Pública de São

       Paulo. 1.ed. São Paulo: Dep. De Cultura, [s.d.].

 

      AMORIM, Santos. Santistas nas Barrancas do Paranapanema. 1.ed. São Paulo:    

       Carmelo Simone, 1932.

 

ANDRADE, Horácio de; MIRANDA, A. Guanabara de Arruda; SOARES, Oswaldo   Bretas. Cruzes Paulistas. São Paulo: Gráfica da Revista dos Tribunais, 1936.

 

ANDRADE NETTO, Manoel Candido de. Bastidores da Revolução Constitucionalista/32. Rio de Janeiro: Estandarte, 1995.

 

DONATO, Hernâni. A Revolução de 32. São Paulo: Abril/Círculo do Livro, 1982.

 

            ______________. História da Revolução de 32. São Paulo: IBRASA, 2002.

 

          FREITAS, Sônia Maria de. História Oral: Possibilidades e Procedimentos. São Paulo: 

          USP/Imprensa Oficial do Estado, 2002.

 

           HIPPÓLITO DA COSTA, Fernando. Síntese Cronológica da Aeronáutica Brasileira    

           (1685-1941). Rio de Janeiro: INCAER, 2000.

 

MORI, Vitor Hugo; LEMOS, Carlos A. C.; CASTRO, Adler Homero F. de. Arquitetura Militar: um panorama histórico a partir do porto de Santos. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado/Fundação Cultural do Exército, 2003.

 

DE PAULA, Jeziel. 1932: imagens construindo a história. Campinas/Piracicaba: Editora da Unicamp/Editora Unimep, 1998.

 

           POLLAK, Michel. Memória, esquecimento e silêncio. In: Estudos Históricos, v.2, nº3,   

           Rio de Janeiro: Associação de Pesquisa e Documentação Histórica, 1989, p.3-15.

 

PONTES, José Alfredo Vidigal. O Brasil se revolta: o caráter nacional de um movimento democrático. São Paulo: Editora Terceiro Nome/O Estado de São Paulo, 2004.

 

SANTOS, Francisco Martins dos. História de Santos. 2ª ed. São Vicente: Caudex, 1986. v. II.

 

SANTOS, Francisco Ruas (coordenador). História do Exército Brasileiro.Brasília: EME/IBGE, 1972.  v. 3.

 

           VELHO, Gilberto. Projeto e metamorfose. Antropologia das sociedades complexas. Rio  

           de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

 

 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O problema da interiorização no estudo de História Militar: o caso de Santos e seus mortos na Revolução de 1932.


                                                                                      Ney Paes Loureiro Malvasio
 
O texto original foi dividido em quatro partes.
 
Parte III

 

Gastão Lopes Leal, mais um santista, nascido em 06 de dezembro de 1897. Mas que, ao contrário dos outros combatentes expostos neste artigo, não foi vitimado em uma das batalhas ocorridas em São Paulo, mas sim, ao procurar evadir-se do Rio de Janeiro para engajar-se em um dos batalhões de voluntários paulistas. Gastão Leal procurou, desde o início do movimento de nove de julho, escapar da capital federal, contudo o Rio de Janeiro encontrava-se sob severa vigilância do governo de Getúlio Vargas, conforme bem documentado por nossa História. Assim como fizeram outros militares e voluntários afeitos à causa da constituição, Gastão Leal juntou-se a outros voluntários imbuídos da vontade de congregar-se aos outros combatentes:

 

... funcionário da Companhia Construtora Paulista, tentou entrar em contato com os conspiradores constitucionalistas no Rio de Janeiro, tão logo soubera de sua existência... No início de julho, fez aquilo que, para ele, seria uma rápida viagem  ao Rio, razão pela qual deixara a mulher e o filho pequeno em São Paulo. Iniciadas as hostilidades, a revolução o impedia de voltar para casa... A grande esperança que tinha era a de ser aceito pelos revolucionários cariocas e ser colocado nas rotas clandestinas de envio de pessoal para São Paulo.[9]

 

 Por fim, a longa busca pela evasão do Rio de Janeiro o levou a fazer parte da tripulação de um avião da Pan Air do Brasil[10], o P-BDAD, conforme a foto abaixo de um modelo idêntico da mesma companhia aérea, preparado clandestinamente para um vôo até São Paulo, já no final do movimento armado.

 

                                       Sikorsky S-38 B, da Pan Air do Brasil

                             

 

Esse hidroavião bimotor, um Sikorsky S-38 B, conseguiu decolar do Rio de Janeiro em 25 de setembro, com alguns voluntários a bordo. Entretanto, o vôo terminou em tragédia, pois 25 quilômetros após a decolagem[11], o aeroplano caiu sobre a região de Vigário Geral, próximo a Mesquita, no próprio Rio de Janeiro, vitimando todos a bordo: Jaime Taveira, mecânico da empresa aérea; Walter Voss, um voluntário austríaco, veterano da Primeira Guerra Mundial; Manoel Machado, vigia do campo de pouso da Pan Air e, o santista Gastão Lopes Leal que há muito esperava a oportunidade de atingir a área de combate. Gastão Lopes era formado na Universidade de Minerva, em Zurique, na Suíça e  foi sepultado no próprio Rio de Janeiro, através do esforço de amigos que lá moravam.

José Pereira nasceu em Santos, em 1906, era soldado do 60 B.C.P. da Força Pública. Essa unidade de José Pereira partiu para o setor sul de operações em 21 de julho, parte da  frente que foi comandada pelo coronel Brasílio Taborda do Exército Brasileiro, fazendo uma destacada defensiva ao grande contingente combinado dos três estados do sul.

 

A relação espaço-tempo, embora os constitucionalistas tenham sofrido seguidos reveses, transformara uma bem-sucedida campanha ofensiva do destacamento do Exército do Sul numa melhor campanha defensiva dos adversários.[12]

 

O miliciano José Pereira, fazia parte dessa grande frente do Setor Sul comandada pelo coronel Taborda. O soldado da Força Pública encontrou a morte ao atravessar o rio Ribeira, durante movimentos coordenados no dia 13 de agosto.

 

Nos primeiros dias de agosto, (era) latente a pressão dos governistas. Os reflexos se fizeram sentir nos deslocamentos que pareceram adequados ao coronel Taborda: decidiu pala manobra e retirada, com ação retardadora, defendendo o terreno palmo a palmo, primeiramente, na linha d’água Apiaí-Mirim, depois na de Paranapanema-Alves. Na primeira ação impunha-se a posse de uma cabeça de ponte em Buri e, para isso, montou-se um ataque previsto para 13 de agosto...[13]

 

Ao que tudo indica, o guerreiro da Força Pública foi sepultado em Nuporanga, em meio ao caos desses combates de 13 de agosto, com diversas travessias de rios no ataque e na volta aos pontos iniciais.

Sérgio Antunes de Andrade, outro soldado da gloriosa Força Pública de São Paulo, uma força estadual de grande escopo, pois em 1931, calculava-se 8192 homens no Decreto de 27 de junho. Além disso, era uma força militar de grande utilização, incluindo fora da província/estado, podendo-se citar a Guerra do Paraguai, revolução Federalista, campanhas de Canudos, e por fim, a Revolução de 1924, seguida da Coluna Miguel Costa (major da F.P., terminou a revolução de 1930, como general), erroneamente nomeada de Luís Carlos Prestes, por simples motivos ideológicos. O interessante durante 1924/25 é que além de ter um efetivo de +/- 14200 homens, havia um grande número de integrantes da Força Pública dos dois lados do conflito, e o comandante revolucionário Miguel Costa, também da Força, tal como citamos. [14]

Outro aspecto muito interessante da Força Pública, foi o fato de ter uma Força Francesa de Instrução, desde 1906,[15]lembrando que o Exército só optou por isso após o final da Primeira Guerra Mundial, em 1919. Portanto, em 1932, São Paulo tinha uma força própria habilidosa, desde a Guerra do Paraguai, participando de conflitos fora da província/estado; bons comandantes, muitos do Exército; treinada de forma excelente pela Instrução Francesa e com grande número de tropa, ativos ou apenas esperando uma nova chamada.

Sérgio Antunes, o último que citamos linearmente, viveu jovem toda essa história da Força de seu estado e, 1932 o viu bastante jovem, já em serviço anterior ao início do conflito. Nasceu em Santos em 1911, como notamos, era de pouca idade ao deflagrar-se o movimento de nove de julho de 1932. Sérgio Antunes, nessa ocasião, fazia parte da 10companhia do 80 B.C.P., outra unidade da Força Pública que operou no setor sul. Entretanto, no dia 28 de agosto, o combatente foi ferido gravemente pelo fogo adversário, durante um dos combates travados numa linha próxima ao rio das Almas.

 Após o combate, o jovem soldado da Força Pública foi sepultado em Capão Bonito.



[9]  Manoel Candido de Andrade Netto. Bastidores da Revolução Constitucionalista/32. Rio de Janeiro: Estandarte, 1995. p. 177.
 
[10]   ___________. Bastidores da Revolução Constitucionalista/32. Rio de Janeiro: Estandarte, 1995. p. 210.
 
[11] Fernando Hippólito da Costa. Síntese Cronológica da Aeronáutica Brasileira (1685-1941). Rio de Janeiro: INCAER, 2000. p. 384.
 
[12] Francisco Ruas Santos(coord). História do Exército Brasileiro. Brasília: EME/IBGE, 1972.  v. 3. p. 953.
[13] . _______________________. História do Exército Brasileiro.Brasília: EME/IBGE, 1972.  v. 3. p. 953.
 
[14] Euclides Andrade & Hely F. da Camara. A Força Pública de São Paulo: Esboço Histórico(1831-1931). São Paulo: Sociedade Impressora Paulista, 1931. p. 32-33.
 
[15] Antônio B. Amaral. A missão Francesa de Instrução da Força Pública de São Paulo. São Paulo: Dep. De Cultura, [s.d.].
 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O problema da interiorização no estudo de História Militar: o caso de Santos e seus mortos na Revolução de 1932.


Ney Paes Loureiro Malvasio

 

 

O texto original foi dividido em quatro partes.

Parte II

 

Bento de Barros foi um dos valorosos integrantes da “coluna Romão Gomes”, que operou a revolução inteira pela estratégia da guerra de movimentos, ao contrário do verificado na maioria dos outros setores de combate. Esse voluntário santista, nascido em 15 de janeiro de 1905, foi incorporado ao Batalhão Barreto Leme (parte da “coluna” comandada por Romão Gomes, oficial da Força Pública de São Paulo) e fez a revolução no arriscadíssimo lugar de padioleiro.

 

Na frente mineira mereceu destaque a figura de Romão Gomes, um major da Força Pública que cursava a Faculdade de Direito. No início da revolução estava no comando do 10 Batalhão Paulista de Milícia Civil – um corpo de voluntários transformado depois na coluna Romão Gomes - , chamando a atenção por sua forte liderança em ações de combate: na defesa de Águas da Prata comandou 450 homens contra 2 mil soldados governistas... conseguindo repelir os atacantes. Promovido a coronel, assumiu o comando do Estado-Maior daquela frente, sediado em Mogi-Mirim. Comandando as tropas do Exército lotadas em Casa Branca, tida como a unidade mais eficiente de todas as forças constitucionalistas, recuperou em poucas semanas várias posições importantes já tomadas pelo inimigo: Vargem Grande, Lagoão, São João da Boa Vista, Cascavel, Mococa, Grama e outras localidades menores.[5]

 

Dessa forma, fazer parte da “coluna Romão Gomes”, mostra o brio transmitido a todos os integrantes da unidade. Em 5 de setembro, Bento de Barros, já na graduação de cabo e auxiliando na heróica remoção de feridos da coluna, debaixo do fogo inimigo, foi colhido por um tiro na estrada entre Grama e Poços de Caldas (MG). Após a revolução, o voluntário santista foi enterrado em Araraquara, provavelmente resida aí o motivo (tal como tenho destacado em cada voluntário morto em combate) de desconhecer-se a participação de Bento de Barros em sua terra natal, tal como se lê em Cruzes Paulistas:

 

Na estrada que liga a cidade de Grama a Poços de Caldas, em terras da fazenda Totó de Mello, Bento de Barros morreu a 5 de setembro, quando cumpria seu nobre mister, vitimado por uma bala de fuzil na cabeça... Nascido em Santos, a 15 de Janeiro de 1905, Bento de Barros era solteiro e artífice.[6]

 

Bernardo Nunes, outro voluntário civil da revolução constitucionalista. Alistou-se em Santos, presumivelmente onde nasceu, e partiu para a luta fazendo parte da “Legião Negra”, famosa por sua atuação no movimento de 1932.

 

Provavelmente um dos mais desconhecidos, silenciados e menos estudados aspectos da guerra civil de  1932 seja a grande mobilização e intensa participação da comunidade negra de São Paulo a favor do ideal de democratização do país. Para se ter uma noção do que representou essa arregimentação dos paulistas negros é preciso, anteriormente, considerar o alto grau de organização que já possuíam as chamadas “associações de raça”, estabelecidas em vários pontos do estado, antes da deflagração do conflito.[7]

 

Bernardo Nunes certamente, pela pesquisa desenvolvida, foi mais um heróico integrante da “Legião Negra” que foi criada da seguinte forma:

 

... na capital paulista, era oficialmente criada e coordenada pelo presidente do Partido Radical Nacionalista, J. Guaraná de Santana, a Legião Negra de São Paulo. Treinada militarmente pelo capitão Gastão Goulart, da Força Pública, auxiliado pelo tenente Arlindo Ribeiro, do Corpo de Bombeiros (F.P.) - ambos negros -, a legião era formada por dois batalhões de infantaria e chegou a possuir um efetivo de cerca de 1600 combatentes incorporados ao Exército constitucionalista.[8]

 

 O nosso Bernardo Nunes, foi mais um dos bravos do setor sul, onde morreu atingido por um tiro de fuzil em um dos combates travados em Apiahy. No período final de sua participação na gloriosa campanha, encontrava-se transferido para o Batalhão Marcílio Franco.

 

 



[5] José Alfredo Vidigal Pontes. O Brasil se revolta: o caráter nacional de um movimento democrático. São Paulo: Editora Terceiro Nome/O Estado de São Paulo, 2004.  p. 158.
 
[6]  Horácio de Andrade; A. Guanabara de Arruda Miranda; Oswaldo Bretas Soares. Cruzes Paulistas. São Paulo: Gráfica da Revista dos Tribunais, 1936. p. 123.

[7]  Jeziel de Paula. 1932: imagens construindo a história. Campinas/Piracicaba: Editora da Unicamp/Editora Unimep, 1998. p. 164.
[8]  ___________ . 1932: imagens construindo a história. Campinas/Piracicaba: Editora da Unicamp/Editora Unimep, 1998. p. 167.

domingo, 30 de setembro de 2012

O problema da interiorização no estudo de História Militar: o caso de Santos e seus mortos na Revolução de 1932.

Ney Paes Loureiro Malvasio
 
 
O texto original foi dividido em quatro partes.
 
Parte I
 
A revolução constitucionalista de 1932, um grave conflito que terminou com mais de 600 mortos, apenas do lado cujo foco foi o estado de São Paulo, teve em Santos, uma das cidades mais ativas durante todo o conflito. Santos manifestou-se como um grande irradiador de voluntários para combater em todos os setores do conflito armado. Entretanto, após pesquisa feita sobre as fontes primárias da revolução, pude constatar que nossa cidade teve mais mortos durante os combates que se imaginava, algo que qualquer um pode ver ao visitar o monumento santista aos seus mortos, localizado na Praça José Bonifácio, no centro do município. Algo interessante de colocar, logo de início, pois durante o movimento perdeu-se Augusto Saturnino de Britto[2], engenheiro nascido em Santos, filho do grande projetista do sistema de canais existente até hoje na cidade. Além dele, mais seis voluntários tiveram seu papel na revolução reconstituído pela pesquisa efetuada.
Uma das principais fontes para o estudo levado a cabo sobre o sacrifício de santistas durante o movimento de 1932 foi Cruzes Paulistas, um livro publicado em 1936, com o intuito de angariar fundos para o mausoléu erguido na cidade de São Paulo, conhecido como o obelisco do Ibirapuera. Esse livro traz uma completa lista de todos os combatentes conhecidos  tombados em combate ou em ações de apoio ao movimento de nove de julho, além disso e, não menos importante, nessa obra há uma pequena biografia de cada um desses participantes da revolução de 1932.
Os outros mortos não conhecidos em sua própria cidade de origem ou residência, a Santos litorânea, apresentarei no corpo deste artigo. É interessante notar que, nem todos nasceram aqui, mas daqui saíram para lutar, e outros, filhos desta cidade, inscreveram-se como voluntários em outros cantos de São Paulo, e mesmo em outros estados.
 
              Conforme pude constatar e que já mencionei anteriormente, a verdadeira causa de não conhecermos, até então, esses valorosos santistas que devotaram suas vidas à revolução constitucionalista, reside em diversos motivos que realçarei ao tratar de cada um, pois cada combatente merece uma breve síntese biográfica.
 
Eu iniciarei expondo o já citado voluntário Augusto Saturnino de Britto, nascido em Santos em 11 de junho de 1905. Era engenheiro agrônomo:
 
Três escolas de agronomia foram por ele cursadas: a de Recife, no início; a do Rio de Janeiro, a seguir; e finalmente, a escola Agrícola “Luiz de Queiroz”, em Piracicaba. Ali formou-se com distinção, dado o seu entusiasmo por aquela ciência. Adquiriu, logo depois, uma fazenda em Marília, para por em prática o que aprendera.[2]
 
 Ao estalar a revolução, como vimos, residia em Marília, local aonde apresentou-se como voluntário, um dos motivos pelo qual os santistas que apresento neste artigo não tiveram seus nomes gravados no monumento a eles dedicado, erigido em 1956, pois  recorreu-se apenas ao alistamento feito aqui e não em outros locais.
Augusto Saturnino de Britto, participou da revolução de nove de julho como cabo do 60 R.I., morrendo em combate no dia 6 de setembro, defendendo uma trincheira na Serra da Bocaina, setor de Silveiras. Depois do fim dos combates, os restos mortais de Augusto foram conduzidos para o Rio de Janeiro, onde repousa na campa de sua família.
 
Alípio Batista Pintofoi outro santista voluntário, era empregado da Companhia Santista de Tecelagem, e foi mais um dos incorporados ao Batalhão Operário de Santos. O que nos demonstra o grande número de simples trabalhadores junto à causa da revolução de 1932, às vezes colocada de forma negativa ou não existente por alguns historiadores. Mas, só estudar de forma ampla o número de voluntários na pugna de 1932, percebe-se o contrário... pois o que se verifica é um número grande de voluntários, tal qual se revela, inclusive pelo nome dos batalhões formados às pressas:
 
... boa parte dos batalhões de voluntários civis foram formados justamente em bairros paulistanos que no ano de 1932 eram estritamente operários, como Brás, Água Branca, Mooca, Lapa, Vila Mariana e Penha.[3]
 
E, ao longo do estado de São Paulo, não só na capital, também se verificou um grande número de voluntários ligados ao trabalho industrial:
 
Também foram constituídas unidades combatentes exclusivas de categorias operárias (fabris), como os batalhões dos Ferroviários e o Operário Pró-Constituição, além dos Operários Católicos, Portuários e Operários de Santos.[4]
                                   
 Como se constata, temos o Batalhão Operários de Santos, local de procura do voluntário Alípio Batista, tal qual dezenas e dezenas de outros voluntários simples trabalhadores, lembrando ainda do caso santista, do Batalhão de Portuários. Em 10 de setembro, entretanto, o voluntário Alípio morreu junto com aproximadamente uma dezena de outros soldados, após a explosão de uma granada que caiu certeiramente na trincheira onde estavam posicionados, na verdade constituiu-se como um fatal e famosamente triste acontecimento a tantos guerreiros. Isso aconteceu em Morro Verde, no perigoso setor de Vila Queimada e, segundo dados obtidos no Cruzes Paulistas, Alípio foi enterrado no local, certamente reside aí o motivo de  ignorar-se localmente sua perda, anos depois.
 
 
 



[2]Horácio de Andrade; A. Guanabara de Arruda Miranda; Oswaldo Bretas Soares. Cruzes Paulistas. São Paulo: Gráfica da Revista dos Tribunais, 1936.  p. 104.
 
[3] Jeziel de Paula. 1932: imagens construindo a história. Campinas/Piracicaba: Editora da Unicamp/Editora Unimep, 1998. p. 118.
 
[4] ___________. 1932: imagens construindo a história. Campinas/Piracicaba: Editora da Unicamp/Editora Unimep, 1998. p. 118.

domingo, 23 de setembro de 2012

CARTA DE DESAGRAVO

 
Reunião da COFAM do dia 15 de Setembro de 2012
Mausoléu dos Veteranos de 32/Obelisco Ibirapuera

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

NÚMEROS DA REVOLUÇÃO DE 1932


                                                                               Luiz Antonio Silveira Melo (1)

Os números foram totalmente desfavoráveis à São Paulo: metade de um Estado (sul do Mato Grosso) aderiu à causa, poucos homens e fuzis menos ainda, pouca artilharia, pouca munição, poucos aviões e nenhum navio pois não houve adesão da Marinha.

Os Combatentes e suas Armas (2)

Os exércitos da ditadura contavam com cerca de 300 mil homens, enquanto que os combatentes de São Paulo foram perto de 34.000. Destes, aproximadamente 10% eram do Exército, 30% da Força Pública e 60% de Voluntários civis.

Houve 60.000 inscrições de voluntários mas o número foi restringido porque não havia fuzis suficientespara todos.

As armas existentes na maior parte eram antigas, havendo em todo Estado somente 27.685 fuzis que a ditadura não removeu após 1930, por serem deficientes e obsoletos. Havia uma metralhadora para cada 235 homens, enquanto que o padrão seria de uma para 25 soldados. A munição também era restrita cabendo, no máximo, 100 tiros por soldado, sendo que pelos padrões da I Guerra Mundial, o número seria de 150 cartuchos por dia por soldado. Para complementar a munição, os cartuchos já deflagrados eram recolhidos do chão e enviados à São Paulo para serem recarregados.

Agravando ainda mais a situação, os voluntários tiveram, quando muito, treinamento precário, havendo a informação de que os Voluntários de Itapetininga chegavam e, sem nunca terem manejado um fuzil, logo eram mandados para as trincheiras.

Quanto à aviação, de acordo com Malvasio (s.d.), quando estourou a Revolução os paulistas contavam com somente quatro aviões militares e posteriormente foram acrescentados mais dois, trazidos do Rio de Janeiro por oficiais da Aviação Militar; em setembro chegaram mais nove aviões provenientes do Chile. Essa foi a Esquadrilha Paulista Gaviões de Penacho.

 

Os Bravos que Morreram por São Paulo

Na obra de Montenegro & Weisshon (1936) são descritos 632 mortos por São Paulo na Revolução de 1932. Entretanto, uns falam em mais de 900, outros em mais de 2.000, estes últimos números, porém, sem qualquer comprovação. Baseando-se na obra citada, fez-se uma compilação dos dados, observando-se que perto de 58% dos mortos eram voluntários e o restante 42% pertenciam predominantemente ao Exército e Força Pública e também ao Corpo de Bombeiros, ao CPOR, à Guarda Civil e à Aviação. A  ocorrência de maior mortalidade de voluntários foi provavelmente pela falta tanto de treinamento como de armamento, como anteriormente relatado.

Cerca de 6% dos combatentes faleceram posteriormente em virtude de doenças adquiridas nas trincheiras. Outros faleceram em acidentes diversos e também rodoviários e por manuseio de armas ou de explosivos.

As maiores porcentagens de mortes em combate e/ou por ferimentos decorrentes dele, segundo o local de ocorrência, em ordem decrescente, foram: Túnel (9%), Vila Queimada (6%), Silveiras (5%), Bury (3,3%), Pinheiros (3%), Campinas e Capão Bonito (2,5%), Itapira (2,4%), Rio das Almas (2,2%), Cunha (1,9%), Amparo e Queluz (1,7%). Há de se considerar que muitos morreram combatendo em local não determinado.

Houve muitas baixas no Túnel e de acordo com Donato (1982) ele foi ocupado  pelos paulistas, que ficaram à espera dos “aliados” mineiros. Porém, em 16/07, duas unidades do Exército chegaram atacando e no dia 18/07 chegaram mais 1.500 policiais mineiros.

Computaram-se perto de 41% de mortos nas regiões próximas ao sul de Minas  Gerais e Rio de Janeiro e de 17% próximo ao Paraná. Essas regiões foram importantes porque nelas concentraram-se as tropas da ditadura para invadir São Paulo. No Mapa a seguir podem ser observadas as frentes de combate que predominavam nas regiões nordeste e sudoeste do Estado.



                  Carta elaborada por J. Washt Rodrigues, segundo Donato (1982).





(1)       Eng. Agrônomo, Dr., ex-Pesquisador da Embrapa, aposentado, filho do ex- combatente piracicabano Léo Silveira Mello.

(2)       Dados baseados em Donato (1982) e Andrade Filho (2012).

 

Bibliografia

 

ANDRADE FILHO, W. facebook.com/#!/groups/13678174593/, acesso em 31/07/2012.

 

DONATO, H. A Revolução de 32. São Paulo: Círculo do Livro S.A., 1982. 224p.

 

MALVAZIO, N. O Ataque a Mogi Mirim: fogo nos céus paulistas. Impresso não publicado, s.d. 7p.

 

MONTENEGRO, B.; WEISSOHN, A. A. (org.). Cruzes Paulistas: os que tombaram, em 1932, pela glória de servir São Paulo. São Paulo: Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1936. 516p.


domingo, 16 de setembro de 2012

Durval Moreira do Amaral: bravo guerreiro do litoral paulista na pugna da Revolução Constitucionalista de 1932


 

 

                                                                                      Ney Paes L. Malvasio *

 

 

       Durval Moreira do Amaral teve por berço a cidade de São Vicente, no litoral paulista, apesar de algumas fontes indicarem outra procedência. Maior prova disso é o seu nome gravado em letras indeléveis no monumento aos mortos da Revolução Constitucionalista em São Vicente.

       Quinze de fevereiro de 1911 marca a data de seu nascimento, sendo que os nomes de seus pais não foram olvidados pela história, e assim, necessário se faz relembrá-los: Euclydes Ribeiro do Amaral  e Ada Moreira do Amaral. Durval não veio ao mundo sozinho, pois fazia parte de numerosa prole, contando Walter, Deoclides, Gastão, Lourival e Dilermando como seus irmãos. A vida naqueles tempos da república velha notabilizava-se pelo grau de desenvolvimento atingido pelo estado de São Paulo, a “locomotiva do Brasil”, como se dizia na época. Entretanto, para Durval, a vida era um tanto dura, já que não provinha de uma família abastada e seus pais tinham a responsabilidade de criar seis filhos. Em vista do futuro que se lhe apresentava optou pela carreira militar e no seu tempo, a milícia paulista, a gloriosa Força Pública foi a alternativa escolhida pelo jovem do litoral.

       A Força Pública era um pequeno exército que, na verdade, era o sustentáculo armado do estado de São Paulo. Seus quadros contavam, durante a República Velha, com unidades de artilharia e aviação, além disso, o treinamento era ministrado por uma missão francesa de instrução militar, desde o mandato do presidente do estado (governador) Jorge Tibiriçá em 1906 que seguiu os conselhos de seu secretário da fazenda, Washington Luís Pereira de Souza (político, advogado, historiador), mais tarde tornou-se o presidente da república deposto pela Revolução de 1930.

       O ingresso na Força Pública era possível somente na condição de praça, e assim, Durval adentrou os portões da Escola de Recrutas (Escola do Soldado), localizada na capital paulista. A vida na caserna era extremamente difícil, dura e sofrida, lugar onde só os mais fortes sobreviviam, literalmente falando. Contudo, Durval do Amaral pareceu demonstrar aptidão para a carreira que escolheu. Em pouco tempo de serviço, pôde freqüentar a Escola de Cabos e, mais tarde, mereceu a graduação de sargento da Força Pública. Era um soldado nato!

       Mas, a vida não se resumia apenas ao quartel, à velha caserna, nesses anos de serviço, Durval se apaixonou e, por fim, contraiu casamento com sua amada Celina Sampaio. A união foi coroada com a vinda de dois filhos, Pedro Maurício e Ada, bela homenagem a sua mãe. Entrementes, a Revolução de 30 estourou em três de outubro e provocou o colapso da república velha e da política do café com leite. Getúlio Vargas subiu ao poder com o chamado governo provisório e São Paulo só tinha a esperar uma época de privações com o colapso da Bolsa de Nova Iorque em 1929 atrapalhando a economia ligada à exportação de café e o revanchismo político tornou-se regra geral, pois São Paulo simbolizava o antigo regime, acabando por sofrer as conseqüências, mesmo que tenha sido parte do braço responsável pela revolução, politicamente com o Partido Democrático e de maneira militar, com as tropas da velha coluna e o comando geral com o General de Brigada Miguel Costa, antigo comandante da coluna, oriundo da Força Pública.

       O povo paulista, no entanto, não consentiu em compactuar com o silêncio. O governo provisório de Vargas cada vez mais adquiria contornos de uma ditadura, e o povo de São Paulo começou a clamar por uma constituinte, o que era o passo mais lógico para a aprovação e regulamentação de um governo democrático. Outros fatos, também se somaram ao descontentamento geral da população, como a nomeação de interventores federais totalmente alheios aos anseios dos paulistas, como João Alberto, um dos tenentes da Coluna de 24, nascido em outro estado. Enquanto todo esse drama se desenrolava tal qual uma bola de neve vai se agigantando à medida que rola montanha abaixo, Durval, junto de sua unidade, o 5o. B.C.P.(Batalhão de Caçadores Paulistas) é mandado para Taubaté, a nova sede do batalhão anteriormente localizado na capital paulista.

       Inevitavelmente, veio o dia vinte e três de maio e com ele o estopim da epopéia que estava por vir. Quatro paulistas caem ante as balas do governo, apesar de pelo menos mais um morto e dezenas de feridos, mas seus nomes seriam imortalizados sob a forma de uma sigla: M.M.D.C. Após a tragédia ocorrida nas ruas de São Paulo, o processo  histórico se desenrolou de forma mais violenta, São Paulo escolheu seus líderes, Pedro de Toledo, Euclides Figueiredo, Marcondes Salgado, Bertoldo Klinger e outros, que liderariam aquele que passaria para  a História como o maior movimento cívico do Brasil republicano. A indignação era crescente e já não existiam mais argumentos capazes de frear o processo revolucionário.

       O 5o. B.C.P., em meio a todos esses acontecimentos, é posto de prontidão em Taubaté. Sua localização geográfica era crítica, pois servia de guardião do Vale do Paraíba, perto do limite com o Rio de Janeiro. Em nove de julho, então, o chamado às armas é ouvido nos quatro cantos de São Paulo, no 5o. B.C.P. a tropa limpa seus fuzis, prepara suas mochilas e parte para o setor do Túnel da Mantiqueira, aonde se estabelecem no dia 10 de julho, já debaixo dos primeiros tiros do fogo inimigo. O setor do Túnel era a chave da frente norte, e acabaria sendo o “moedor de carne” da Revolução de 32, tantos foram os que tombaram naquele estreito pedaço de serra. A posição nunca seria tomada à viva força pelas tropas governamentais, apesar da ulterior derrota do movimento constitucionalista no campo das armas.

       No túnel, os combates eram praticamente diários, os mortos tombavam uns após os outros nas trincheiras. Os paulistas são menos numerosos, mal armados e mal equipados, tudo é feito às pressas pela nascente indústria. Contudo, sobrava o ardor. Durval do Amaral estava no seu teatro, foi para aquilo que tinha sido treinado e, de forma nenhuma, decepcionaria aqueles que lhe depositavam confiança. Em pouco tempo de campanha é promovido ao posto de tenente por atos de bravura, galgou o oficialato em pleno campo de batalha!

       Mas, os azares da guerra são imprevisíveis. No início de setembro, as tropas constitucionalistas procuravam esboçar uma ofensiva para além de Silveiras. Em meio ao planejamento do ataque, surgiu uma missão arriscada, praticamente suicida na área do Morro Pelado. O capitão Odilon Aquino prefere pedir por voluntários para cumprir a missão, o tenente Durval prontifica-se imediatamente, era necessário desalojar o 19o. B.C. de suas posições, elemento crucial do dispositivo federal no setor de Silveiras. Durval do Amaral, ouvidas as instruções, parte acompanhado de outro voluntário, Milton Ferreira. O combate é renhido, os paulistas conseguem desalojar parte do 19o. B.C. de suas trincheiras, mas logo é encetado um furioso contra-ataque. No meio da pugna trágica, o tenente Durval é colhido pelas balas inimigas e cai sobre o solo por que lutara tão bravamente. Era o dia 3 de setembro...  nada mais havia para ser feito.

       Pouco depois, o corpo de Durval foi trasladado para a capital e sepultado no cemitério São Paulo. Durante as exéquias, um jornalista guardou as palavras de seu pai, Euclydes:

                                     ... orgulho-me da sua morte, pois ele soube ser um valente  e uma consciência a  serviço dessa luta sacrossanta. O seu exemplo ficará como o melhor ensinamento para todos aqueles que ainda são crianças e não puderam servir ao glorioso estado de São Paulo.[1]

 

 

[1] A. Miranda & Horácio de Andrade. Cruzes Paulistas.

 

*Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/IFCS), membro da Associação de Combatentes de 1932/ Seção Santos, oficial reformado do Exército Brasileiro.

 

      

       Bibliografia:
 
    AMORIM, Santos. Santistas nas Barrancas do Paranapanema. 1.ed. São Paulo:  Carmelo Simone,      1932.

 

       MIRANDA, A., ANDRADE, Horácio de. Cruzes Paulistas. 1.ed. São  Paulo:

       Revista dos Tribunais, 1936.

 

       DONATO, Hernâni. A Revolução de 32. 1.ed. São Paulo: Abril, 1982.    

 

       MALVASIO, Luiz S. História da Força Pública. 1.ed. São Paulo: S.I.F.P.,1967.

 

       _________________. Resumo Histórico da Polícia Militar.  1.ed.   São  Paulo:

       S.I.F.P., 1972.

 

       AMARAL, Antônio B. A missão Francesa de Instrução da Força Pública de São

       Paulo. 1.ed. São Paulo: Dep. De Cultura, [s.d.].

    

       RODRIGUES, Olao. Veja Santos. 1.ed. Santos: P.M.S., 1973.



 

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